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O Pastor e Cia


O que Deus colocou no meu coração para compartilhar neste artigo, é sem dúvida alguma, um dos temas mais gloriosos no tocante à prática pastoral. São muitos os que se engajam na sagrada obra do ministério obstinadamente, caracterizados pelo interesse próprio, pela negligência, pelo orgulho, pelo divisionismo, e por outros pecados. Por estes e outros motivos convido a todos os pastores e principalmente os aspirantes ao ministério pastoral para refletirmos sobre o que o encargo pastoral representa, analisando a figura do pastor na companhia do Sumo Pastor, na companhia do rebanho, na companhia do discípulo e na companhia de si mesmo.

O Pastor na companhia do Sumo Pastor

O maior alvo da tarefa pastoral é a nossa comunhão com Deus “a fim de que todos sejam um; e como És Tu, ó Pai em Mim e Eu em Ti; também sejam eles em Nós” (Jo 17.21). Na companhia do Sumo Pastor aprendemos a andar com Ele, a atender os seus conselhos sem estabelecer os nossos, e é na companhia do Sumo Pastor que prosseguimos em conhecer ao Senhor (Os 6.3). Quem conhece ao Senhor, conhece a Sua doutrina, ensino, disciplina e desfruta da Sua presença em forma de inspiração, orientação, direção, consolo, graça e poder para ministrar a si mesmo e a outros.

Na companhia do Sumo Pastor aprendemos a depender de Deus. Descobrimos que a oração é vital e quem não ora por seu rebanho não lhe pregará poderosamente.

Na companhia do Sumo Pastor o Senhor nos fala que devemos nos conduzir com humildade e modéstia diante de todos. Quando ensinamos devemos está abertos para aprender e não desprezar os leigos. Não ajamos como se já estivéssemos chegado ao topo, e outros tivesse que sentar-se aos nossos pés.

Na companhia do Sumo Pastor aprendemos a fazer o nosso trabalho com reverência. Pois falar com frieza e superficialidade das coisas celestiais é muito pior que não dizer nada a ninguém. A reverência a que me refiro é aquele afeto da alma que provém da nossa comunhão com Deus. Daí a importância de estarmos na companhia do Sumo Pastor.

Na companhia do Sumo Pastor provamos as coisas do Espírito de Deus e a mensagem que pregamos adquire um tom espiritual que os ouvintes piedosos podem discernir, absorver e fruir a partir da nossa pregação.

Na companhia do Sumo Pastor recebemos graça e poder para exercitarmos a paciência. Quantas vezes temos que suportar abusos e ofensas daqueles a quem estamos fazendo o bem. Há alguns que depois de darmos atenção a seus problemas, de termos orado por suas vidas e de termos nos desgastados por eles, de repente nos odeiam e nos desprezam. Farão isto simplesmente por que lhes dissemos a verdade. Mas, na companhia do Sumo Pastor recebemos a paciência que precisamos para sofrer por agir corretamente.

Na companhia do Sumo Pastor aprendemos a amar as pessoas do nosso rebanho. Como o apóstolo João, não devemos ter as nossas vidas como preciosas para nós, mas a sacrificarmos pelos outros por amor a obra de Deus. Quando o rebanho que o Senhor nos confiou vir que nós o amamos verdadeiramente, ouvirá o que dissermos – dará o que lhe pedirmos – e nos seguirá sem temor.

Na companhia do Sumo Pastor nossos filhos na fé devem ver que não nos preocupamos com as coisas externas – nem dinheiro, nem luxo, nem liberdade, nem a própria vida, mas a nossa amorosa preocupação com o rebanho deve ser prioritariamente pela salvação dele.

Enfim, na companhia do Sumo Pastor somos santificados para um compromisso verdadeiro com Jesus Cristo e seus discípulos. Podemos ver na Sua companhia o quanto a graça salvadora tocou as nossas almas e temer diante do alto chamado que Deus nos fez para sermos pastores do Seu rebanho.

O Pastor e a companhia do Rebanho

“Procura conhecer o estado das tuas ovelhas; põe o teu coração sobre os teus rebanhos” (Pv 27.23).

Está implícito, antes de tudo, que todo rebanho deve ter o seu pastor (um ou mais), e que todo pastor deve ter o seu rebanho. A vontade de Deus é que cada igreja tenha os seus próprios pastores, e que todos os discípulos de Cristo “reconheçam os que trabalham entre eles e que presidem sobre o eles no Senhor, e os admoestam” (1ºTs 5.12).

“E, havendo-lhes, por comum consentimento, eleito anciãos (pastores) em cada igreja...” (At 14.23). Antes de um homem ter competência para ser um verdadeiro pastor de igreja, a verdadeira prova da sua utilidade é se ele é dedicado a Deus de todo coração ou não. Pois, nenhum homem servirá para ser pastor do rebanho de Deus, se não for sincero em amar e servir ao Senhor acima de tudo.

A natureza da obra pastoral é tal que deve ser realizada pessoalmente pelo pastor e eu creio que o pastor deve se encarregar de fazer pelo rebanho o que puder fazer bem feito, e não tentar ir além disso. O pastor entende que o supremo propósito do ministério pastoral está ligado ao propósito de sua vida e esse propósito é agradar, glorificar a Deus e também estimular a santificação e a obediência do povo de Deus que está sob o nosso cuidado pastoral.

Nenhum pastor cuidará bem do rebanho nem tampouco servirá para ser ministro de Cristo sem que se deleite com a beleza da Igreja, anele sua felicidade, procure a sua prosperidade e se regozije com o seu bem estar. Todo pastor deve está disposto a gastar-se e a ser gasto por amor a Igreja.  

Nenhum pastor será bem sucedido na companhia do rebanho se não tiver prazer na santidade, se não odiar a iniqüidade, se não amar a unidade e a pureza da igreja, e se não detestar a discórdia e o divisionismo. O pastor precisa ter prazer na comunhão dos santos e no culto público com o seu povo. Estas coisas refletem os verdadeiros propósitos do pastor e sem elas é-lhe impossível fazer a sua tarefa.

Bom seria que ao cuidarmos do rebanho de Deus não tratássemos de coisas temporais e transitórias, mas que a nossa prioridade máxima fosse a vida espiritual do rebanho. Deus dá aos pastores o privilégio de revelar ao rebanho as profundezas do insondável amor e da sua misericórdia.

Na companhia do rebanho o pastor está encarregado de descerrar para as suas ovelhas o mistério da redenção: a pessoa, a natureza, a encarnação, a perfeição, a vida, os milagres, os sofrimentos, a morte, o sepultamento, a ressurreição, a ascensão, a glorificação, o domínio e a intercessão do bendito filho de Deus.

O pastor na companhia do rebanho tem o privilégio de ajudar as ovelhas a saber o significado das promessas de Deus, as condições a nós impostas e os deveres que nos mandou cumprir. Além disso, o pastor tem a responsabilidade de falar e advertir as ovelhas sobre a ameaça de juízo que paira sobre os que não se arrependem dos seus pecados e negligenciam a graça de Deus. O pastor terá que mostrar às ovelhas como lutar, vencer e se desvencilhar das corrupções da carne e suas inclinações pecaminosas. Terá que falar ao rebanho sobre as bênçãos do céu e a realidade do inferno.

Se, é um privilégio para o pastor revelar ao rebanho os desígnios dos mistérios da criação, da redenção, da justificação, da adoção, da santificação e da glorificação é seu dever também revelar às ovelhas as profundezas da tentação de satanás e dos nossos próprios corações para expô-los ao tratamento da Palavra de Deus.

Na companhia do rebanho o pastor se preocupa com cada ovelha. Daí, precisamos conhecer cada pessoa das que estão no nosso rebanho. Pois, como podemos olhar por elas, se não a conhecemos? O próprio Cristo, o Sumo Pastor, toma conta de cada um individualmente. Lembra-nos o evangelista Lucas que Ele “deixa no deserto as noventa e nove e vai após a perdida até que venha achá-la” (Lc 15.4). Como pastores teremos que prestar contas da nossa vigilância sobre as almas de todos aqueles que estão no dever de obedecer-nos (Hb 13.7).

Na companhia do rebanho nossa preocupação é com cumprimento integral da tarefa que Deus nos confiou. A extensão dessa tarefa é a mesmo tempo gloriosa e desafiadora. Permitam-me enumerar algumas responsabilidades que são objeto do nosso cuidado pastoral:

  1. O interesse pelos não convertidos. Isto nos desafia a concentrar a nossa atenção na grande obra de evangelização.

  2. O cuidado com a edificação dos convertidos. Seu discipulado, progresso e maturidade espiritual, restauração e consolação.

  3. O trato como os espiritualmente fracos na fé. É um grande desafio para o pastor fortalecer a fé daqueles que descaíram da graça e não conseguem ficar de pé no combate contra satanás.

  4. Outras responsabilidades desafiadoras que são objeto do nosso cuidado pastoral são: a pregação da Palavra, a ministração das ordenanças, a direção do culto público, o cuidado com cada membro do rebanho, o interesse pelas famílias, o interesse pelos pobres e os ricos fiéis ao Senhor, a visitação aos enfermos, a disciplina eclesiástica aos insubmissos, enfim, na companhia do rebanho o pastor tem a honra e o privilégio de cumprir o seu dever “e Ele mesmo deu uns para... pastores... querendo o aperfeiçoamento dos santos para obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef 4. 11,12).

Ainda, acerca dos fracos na fé é preciso sermos diligentes no socorro a estes. “Pois a maturidade do cristão é a honra da igreja” diz um sábio escritor. Alguns estão fracos porque são dados ao orgulho, outros ao mundanismo e outros ainda, a este ou àquele desejo sensual que os levam a imoralidade e a outras paixões ilícitas.

É dever do pastor ajudar essas pessoas mediante orientação adequada para que possam dominar as suas fraquezas. É possível que ao cumprirmos o nosso dever alguns se irritem e rejeitem a correção, porém o pastor não pode ser condescendente com os pecados dos crentes, e abster-se de ministrar-lhes a necessária repreensão. Tampouco deve deixar que o pecado que atrofia a ovelha permaneça em sua alma. Nesse trabalho o pastor precisará de discernimento, prudência e paciência com os fracos. No trato para com os fracos do rebanho o pastor tem que incluir os que caíram em grandes tentações e escandalizaram o Evangelho. Esses precisam de muita assistência.

Alguns foram tentados pelo erro e pela heresia e o pastor para impedir que o rebanho seja contaminado terá que usar de prudência para manter o rebanho livre de divisões e em promover a unidade. É claro que o pastor só conseguirá êxito nesta tarefa quando perseverar em dá bom testemunho público e demonstrar no seu viver privado um caráter exemplar (cf. Gl 6.1).

O Pastor na companhia dos discípulos

Se constitui um inquestionável dever de todos os ministros da igreja e especialmente dos pastores o cuidado com o novo discípulo. É dever do pastor ensinar, orientar e instruir as pessoas quanto aos princípios da Palavra de Deus.

Na companhia do discípulo o pastor interage com o rebanho. Seu amor e cuidado pelo povo de Deus estende-se a todos os membros da sua congregação.

Eu creio que todos nós pastores estamos conscientes de que a vida de serviço às ordens de Deus consiste no prudente e eficiente ministério na companhia do discípulo levando aos seus corações as salvadoras verdades da fé.

Que Deus ajude aos pastores para que não exerçam o seu ministério descuidadamente e de forma superficial. Mas, como cristãos e pastores dedicados possamos preparar discípulos para o crescimento do reino de Deus. Confesso aos amados amigos pastores que não somente nós, mas a igreja se recente da falta de mestres para treinar e formar discípulos. Confesso com tristeza que temos de lidar com muitas pessoas e ás vezes não temos tempo nem forças para falar com todas as pessoas de nossas igrejas e atendê-las conforme as exigências de suas necessidades.

Não é prudente desligar o telefone, deixar de atender à porta da casa pastoral, nem tampouco transferir a responsabilidade da tarefa pastoral para outros. Tratemos, pois de zelar pelo nosso ofício de modo que embora não fazendo da maneira que gostaríamos de fazer, não sejamos faltosos naquilo que temos o dever e a capacidade para fazer.

O Pastor na companhia de si mesmo

Sempre há um Deus que chama e um servo que atende. No cumprimento do chamado para o ministério pastoral, o conhecimento de si mesmo é um dos mais relevantes. O apóstolo Paulo recomenda a Timóteo “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina, persevera nestas coisas; porque fazendo isto, se salvarás tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (2ªTm 4.16).

O conhecimento de si mesmo é especialmente necessário para que não ocorra o que o apóstolo Paulo temia, “tendo pregado a outros não venha eu mesmo ser desqualificados” (1ªCo 9.27).

Na companhia de si mesmo, nossa tarefa é olhar por nós mesmo “Olhai por vós mesmo e por todo o rebanho sobre que os Espírito Santo vos constituiu bispos para apascentardes a igreja de Deus, que Ele resgatou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

Consideremos alguns motivos para olhar por nós mesmo:

  • Para não suceder que ofereçamos a graça de Deus às pessoas sem dela desfrutarmos.
  • Para não perecermos enquanto clamamos a outros que cuidem de si para não perecerem.
  • Para que não venhamos a morrer de fome enquanto preparamos comida para outros.
  • Para que estejamos seguro daquilo em que cremos e por isso persuadirmos outros a crer.
  • Para não pregarmos as leis de Deus e ao mesmo tempo as infringirmos deliberadamente.
  • Para aprendermos a lição antes de ensiná-la (Rm 1.32).
  • Para não pregarmos contra os pecados dos quais ainda não fomos libertos (Rm 2.21-23).
  • Para que não enfraqueçamos por nossa negligência e para que não estraguemos a obra de Deus com a nossa fraqueza. “Pois qual o homem tal a sua valentia” (Jz 8.21).
  • Para não desfazer com o testemunho de vida o que dizemos com as nossas palavras para que não venhamos apreciar em secreto o que denunciamos publicamente.
  • Para que não venhamos receber a insígnia dos fariseus: “dizem e não praticam” (Mt 23.3). Como disse certa vez Richard Baxter “Um grande homem não pode cometer um pecado pequeno”.

São muitos os motivos para cuidarmos de nós mesmos, o apóstolo Paulo em Romanos 12.11, nos adverte: “Não sejais vagarosos no cuidado; sedes fervorosos no espírito servindo ao Senhor”.

Na companhia de si mesmo, o pastor teme e treme diante do seu Deus só em pensar nas qualificações necessárias para o pastorado. Quantas dificuldades da teologia para ser compreendidas! Quantos pontos essenciais da fé são obrigatoriamente necessários conhecer! Quantos textos obscuros têm que ser explicados! Quantos deveres precisam serem cumpridos! Quantos pecados devemos evitar! Quantas tentações sutis precisam ser vencidas! Quantos problemas opressivos de consciência temos que resolver quase todo dia!

Meus irmãos, vendo como estes desafios pesam sobre nós, fico a imaginar comigo mesmo, que classe de pessoas devemos ser em todos os nossos esforços para realizar a obra de Deus? Um trabalho assim poderá ser realizado por homens imaturos e incompetentes? Como diz o apóstolo Paulo: “Para estas coisas quem é idôneo?” (2ªCo 2.16).

Na companhia de si mesmo, roguemos a Deus que nos ajude a não perdemos tempo. Vamos estudar, orar, pregar e praticar. Tenho certeza que nossas capacidades aumentarão e nos “tornaremos pessoalmente padrão de boas obras” (Tt 2.7).

Em Cristo Jesus e porque Ele vive! 

Pr. Antonio José Azevedo

Data: 20-01-2009 00:00:00
Canal: Artigos

 
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